18 de maio de 2013

A releitura de Pinóquio


Sabe aquele Pinóquio que você conhece, que tem a sua história toda baseada no lance da mentira e do bom comportamento? Aquele boneco de madeira bonitinho que ficou imortalizado na figura doce criada por Walt Disney? Pois é, essa era a imagem que eu tinha também. Isso até ler a adaptação para os quadrinhos do francês Winshluss.  A graphic novel foi publicada em 2009, chegou aqui no Brasil no ano passado pela Globo Livros e levou todos os prêmios possíveis. A melhor do gênero em 2012. Terminei a leitura dessa obra na manhã de hoje e mais uma vez me pergunto: porque raios não li isso antes?
Todo mundo conhece Pinóquio, mas vamos esquecer aquele boneco inocente criado por Carlo Collodi. O Pinóquio dessa edição é um robô criado por Gepeto, que é casado com uma ex-atriz pornô. E é dificil de acreditar no que essa senhora faz no livro. Nessa versão, Gepeto cria Pinóquio porque quer ficar rico, é um inventor fracassado e espera que seu invento se transforme em uma máquina de guerra. O Pinóquio é sombrio e taciturno, não pronuncia uma só palavra durante toda a narrativa, mas está cercado de todos os personagens que estão na história original, mas todos em outra roupagem. Até o Grilo Falante está lá, embora ele não seja, nessa versão, exatamente um grilo.
Se na história original Pinóquio entra em contato com a violência, vícios, mentira e ganância, na história contada por Winshluss, o boneco conhece tudo isso multiplicado por 30. Algumas cenas (não indicadas para menores de 18 anos) são o retrato de um mundo doente, que está apodrecendo do lado das nossas casas, mas às vezes insistimos em não ver. Winshluss reconstrói alguns personagens, além do protagonista e seus amigos mais próximos. Paralelamente, o leitor ainda pode acompanhar a história de uma Branca de Neve moderninha  - aliás duas ou três Brancas de Neve - e sete anões sadomasoquistas; um detetive que é assombrado pelo seu animal de estimação - que ele mesmo matou -; uma lésbica que encontra o amor de sua vida em uma praia; e o ponto alto do livro: as reflexões do Jiminy Barata, o Grilo Falante desse Pinóquio reinventado. Todas as histórias paralelas se entrelaçam no final, como não poderia deixar de ser.
Pinóquio é uma obra de arte em todos os sentidos. Tem desenhos que deixariam qualquer um de boca aberta, riquíssimo em detalhes, além de um texto primoroso. Não deixe o preço te assustar. Você vai pagar de 60 a 80 reais, e isso depende de onde você vai comprar, mas vale o investimento. A edição é luxuosa, de capa dura e vai te mostrar como é bom imaginar que os seus personagens da infância, não eram tão infantis assim. Você não fica com a sensação de que alguém deixou de te contar alguma coisa?


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